Hoje o assunto do quadro Dissertando é Transição Capilar, que é nada menos que você passar pelo processo de aceitação e deixar o seu cabelo do jeitinho que é, sem alterar a sua textura e perdendo a identidade.

O que significa?A transição capilar é um processo de deixar os produtos químicos usados para alterar a textura dos fios e voltar ao seu cabelo natural, seja ele crespo, ondulado ou cacheado.

E para falar um pouco mais sobre o assunto, veja abaixo a entrevista que fizemos com três jovens leitoras que estão arrasando com o seu visual natural!

 

Quando você percebeu que era hora de aceitar o seu cabelo natural? 

Tudo começou quando já não estava me sentindo bem comigo mesma. Toda vez que alisava o cabelo, era sempre o mesmo resultado, e eu nunca estava feliz com aquilo. Usava química desde cedo, fiz minha primeira progressiva com 7 anos e consecutivamente alisei até meus 13. Entrei em transição duas vezes, a primeira não deu muito certo, e alisei o cabelo de novo, mas, uma das coisas que mais me dava raiva, era que em menos de 1 mês minha raiz estava enorme. Pois bem, fui procurar saber mais sobre como voltar ao cabelo natural, pois olhava minhas fotos de quando era criança e percebia que meu ”crespinho” era lindo, e ficava me perguntando de onde eu tirava todo aquele ódio de reclamar com Deus por não ter nascido com cabelo liso.


Como você era vista, e como é hoje após a transição?
Dizem que eu mudei, e pra melhor. É claro que recebi críticas, e recebo até hoje, mas fazer o que? Sempre terá pessoas para te apoiar e principalmente te criticar. Mas acho que, quando você tem foco em algo, deve ir até o fim, independente de todas as barreiras que lhe aparecer. Chega um momento em que você se cansa e deve se libertar de tudo, dos padrões impostos pela mídia e também das pessoas que não te fazem bem! As vezes faz bem mandar um f****, te garanto viu! hahaha

Qual foi o momento mais difícil da transição? 

Se eu disser que a transição foi fácil estarei mentindo, por que não foi. Não é fácil para uma garota que está acostumada a tanto tempo alisando o cabelo decidir voltar com o cabelo natural, a primeira coisa que você deve ter em mente quando entra na transição, é sua própria aceitação, independente do tipo de cabelo que crescer , lidar com as duas texturas (pontas alisadas e raiz natural) também não é fácil, há vários tipos de penteados e até mesmo tranças que facilitam o processo. Briguei também com a tal ditadura dos ”cachos perfeitos” , não adianta eu querer impor o jeito que meu cabelo irá crescer, e aprendi a cada dia mais cuidar do meu crespo . Eu mesma passo por processo de aceitação até hoje, mudanças sempre serão bem vindas ao longo do caminho.

Gabriela Oliveira



Quando você percebeu que era hora de aceitar o seu cabelo natural? 

Eu nunca tinha visto como possibilidade ter o cabelo natural, transformava o cabelo desde muito pequena e não tinha contato com pessoas que não faziam isto. Todas as mulheres da minha família alisavam também. Sempre Fui curiosa, e a partir do contato com o natural, fui pesquisar na internet e vi que era possível. Já fazem 2 anos e 8 meses que não modifico o cabelo, e é sempre importante esclarecer que meu cabelo não é cacheado, e sim crespo.

Qual foi o momento mais difícil da transição?

O momento mais difícil para a maioria das meninas é o “Big Chop”, o momento que você retira todo o cabelo alisado. Para mim, o mais duro era não saber o que fazer com as duas texturas de cabelo.

O que mudou após este processo? 

A maior mudança é a forma que eu vejo o mundo, as relações de racismo, e tudo que me fizeram achar que eu era feia. A partir desta mudança de olhar meu cabelo, passa a ser posicionamento político, de afrontamento contra esta sociedade racista e machista.
Daiane Zito

Quando você percebeu que era a hora de aceitar o seu cabelo natural?
Percebi que era o momento de aceitar o meu cabelo natural, quando compreendi que usar ele lisa não era por eu gostar, não era uma opção individual, e sim uma construção social. Alisava meu cabelo com a desculpa de que era mais prático, que achava mais bonito, porém eu só estava negando, não queria conhecer meu cabelo, e não questionava estas imposições. Usei químicas desde criança e não lembrava como era meu cabelo natural, então essa mudança foi importante para que eu pudesse reconhecer minha identidade.

Qual foi o momento mais difícil da transição?

Desisti diversas vezes antes de realmente acreditar nesta mudança, acreditar em mim. É um processo longo, e de mudanças muito notáveis, que não acontecem apenas no exterior, não é só o cabelo que muda. Acreditava que cabelo crespo era lindo, mas que em mim não ficaria bom, então a representatividade de mulheres negras foi muito importante na minha transição. Ter contato com essas mulheres me encorajaram, e me ajudaram a reconhecer esta minha identidade, precisei desta mudança para aceitar esta identidade, pois foi importante para eu me ver como negra.

Como você se sente hoje?

Me sinto mais autêntica, não tendo vergonha de ser quem sou. Sinto que faço parte de uma grande conscientização da mulher negra, e que usar meu cabelo natural é apenas consequência desta luta.

Patricia França